A ÉTICA DO YOGA


Krishna e Pandavas
Quando o yogi se torna qualificado, através da prática da disciplina ética, por abster-se de ações ilí­citas (yama) e da auto-superação (niyama), pode (então) começar a prática
de 
asanas e das outras técnicas.Yoga Bhasya Varana, II:29


Se você não tiver tempo ou disposição para agir conforme a ética do Yoga, tampouco terá tempo nem atitude para praticá-lo. Yamaniyama são os dois primeiros passos da caminhada, condição indispensável para que a prática dê resultados concretos.
Pedro Kupfer


O fundamento do Yoga, como de toda espiritualidade autêntica, é uma ética universal. Essa prática compreende 10 grandes obrigações morais que podem ser consideradas patrimônio de todas as grandes religiões. São elas os 5yamas e os 5 niyamas.

Lakshman, Hanuman, Rama e SitaYama significa controle ou domí­nio. É o pontapé inicial no caminho do Yoga. Os yamas são cinco proscriçõesahimsasatya,asteyabrahmacharya e aparigraha, aquilo que não devemos fazer, os refreamentos ou abstinências que pretendem purificar oyogi, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes da prática. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braçospernasboca, e órgãos sexuais eexcretores. Essas normas de disciplina moral têm a finalidade de por freio ao poderoso instinto de sobrevivência e canalizá-lo para servir a um propósito superior, regulando as interações sociais doyogi, harmonizando o relacionamento dele com os outros seres.Esse controle criativo que os yogis exercem sobre as suas energias exteriorizantes resulta num excedente energético que pode então ser posto a serviço da transformação espiritual da personalidade.

Ahimsa, a não-violência, entende-se como não matar, não agredir, não ferir, nem causar nenhum tipo de dor a nenhum ser vivo. É a raiz de todas as outras normas morais.

Satya, a veracidade ou o não mentir, consiste em fazer coincidir pensamentos, palavras e ações, o que deve entender-se comoevitar a falsidade em todas as suas formas.

Asteya significa não roubar, não cobiçar ou invejar bens ou conquistas de outrem. Não é apenas não roubar, mas eliminar totalmente o impulso de apoderar-se de objetos (ou idéias) alheios.

Radha e KrishnaBrahmacharya, o não desvirtuamento da sexualidade (não perverter, nem degradar, exacerbar, explorar ou se submeter ao sexo) pode interpretar-se tanto como total e absoluta abstinência sexual quanto não dissipação da energia através do orgasmo. Em ambos os casos, pretende-se, embora por meios diferentes, refrear a força geradora, a fim de entesourá-la para a evolução no sadhana(disciplina espiritual). Sob o aspecto mais geral, pensa-se que a estimulação sexual interrompe ou obstaculiza a aspiração à iluminação ou libertação, na medida em que alimenta o desejo de experiências sensoriais e na maioria das vezes leva à perda de sêmen e de energia vital (ojas). Brahmacharya também significaser coerente em sua vida relacional e sexual.

Aparigraha, a não possessividade ou o não cobiçar, traduz-se em generosidade e desapego (vairagya) em relação não apenas aos bens materiais, mas também às relações afetivas. O apego (raga) nos tira da sintonia necessária para praticar. Assim, os yogis são encorajados a cultivar a simplicidade voluntária, pois o excesso de bens materiais só serve para distrair a mente, sendo a renúncia(vairagya) um aspecto essencial do estilo de vida yogiko.

Não pode ser eficaz e verdadeira a meditação de alguém que está em dí­vida com seus semelhantes, se há alguém a quem feriu, a quem enganou, a quem furtou, a quem explorou sexualmente, a quem deseja ou desejou arrebatar algo, pois as ví­timas estarão vibrando contra o pretenso meditante. í€ mente deste acorrerão lembranças e remorsos, que a inquietarão e frustrarão a pretensão de meditar.

ShivaNiyama, as prescrições psicofí­sicas, compreendem cincodisciplinas ou observâncias, ou seja, aquilo que devemos fazer:sauchansantosatapassvadhyaya e Ishvarapranidhana. Essas atitudes cumprem a função de domí­nio sobre os cinco órgãos de percepção (jñanendriyas): olhosouvidosnarizlí­ngua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal einterior do praticante, harmonizando o seu relacionamento com a vida em geral e com a Realidade transcendente.

Sauchan é a pureza ou purificação. A purificação externa incluialimentação vegetariana, exercí­cios de purificação orgânica (como a lavagem das vias respiratórias e dos aparelhos digestivo e excretor) e manter limpo o ambiente em que se vive. Um organismo poluí­do por hábitos impróprios, como o uso de drogas (incluindo o cigarro e o álcool) ou alimentação intoxicante, gera comportamentos e condicionamentos contraproducentes para a prática do Yoga. A purificação interna inclui a eliminação das impurezas do pensamento. As técnicas mais refinadas de purificação são tattva suddhi e chitta suddhi (antar mouna).

Santosa, o contentamento, consiste em cultivar um estado interior de permanente alegria, independentemente das circunstâncias externas, o que facilitará muito o progresso na prática. O contentamento é uma expressão da renúncia (vairagya), o sacrifí­cio voluntário das coisas que nos serão inevitavelmente arrebatadas no momento da morte. Liga-se de perto àquela atitude de indiferença que faz com que os yogis encarem com a mesma atitude um torrão de terra e uma pepita de ouro, o que permite que eles se deparem com o sucesso e o fracasso, o prazer e a dor, com a mesma equanimidade inabalável.

Rama abraçando HanumanTapas é determinaçãoforça de vontade concentrada, esforçosobre si próprio, a sobriedade e austeridade visando a queimar os desejos egocêntricos, inferiores, instintivos e naturais, eliminando moleza, debilidade, pieguice, etc.

Svadhyaya é o estudo da metafí­sica do Yoga e de si próprio; abrange não apenas o autoconhecimento, através da reflexão sobre a sabedoria das escrituras (sastras), mas também a aplicação prática desse conhecimento.

Ishvarapranidhana é a devoção, consagração, auto-entrega e submissão a Ishvara (Senhor, Deus pessoal), entendido como o arquétipo do yogi, o modelo ideal a ser seguido pelo praticante. Também significa entregar incondicionalmente as ações e seus frutos a uma vontade superior à sua própria. Pode entender-se como auto-aceitação no momento presente ou, ainda, como serviço à Humanidade.

Poucas escolas de Yoga hoje em dia, principalmente aqui no Ocidente, se dedicam a ensinar os yamas e niyamas. Entretanto, uma pequena reflexão sobre eles revela a sua importância na manutenção da “ecologia” social e individual. Através da prática desses preceitos se estabelece uma convivência pací­fica, harmoniosa e feliz na sociedade. É por essa razão que o sábio Patañjali os chama sarvabhauma, supremos ou universais, poisvalem para todas as pessoas e em todas as circunstâncias. E cabe destacar aqui que, segundo Pedro Kupfer, o Yoga não é moral nem moralizante: os yamas e niyamas possuem uma função meramente utilitária e somente se praticam em função do objetivo final do yogi. Os conceitos de Bem e Mal não são agentes da sua conduta; a única causa do seu comportamento é o titânico esforço sobre si próprio que precisa fazer para viver em yama eniyama, e o resultado desse esforço, a libertação (moksha) obtida por meio do samadhi (a iluminação outranscendência).


Sí­ntese por Cristiano Bezerra baseada em textos dos livros A Tradição do Yoga, de Georg FeuersteinConvite à Não-violência, de José Hermógenes, e Yoga Prático, de Pedro Kupfer.

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